O campo produz alimentos, gera riqueza, empregos e desenvolvimento. Mas também produz escolhas.
Há gestos que ultrapassam cifras. O anúncio da doação de R$ 1 milhão para a implantação do Centro de Hemodiálise de Juína, feito por um fazendeiro da região (Carlos Salgueiro Lourenço) — sócio proprietário da Fazenda Amália — não é apenas um dado contábil ou uma boa notícia administrativa. É, antes de tudo, um espelho incômodo que se coloca diante da sociedade.
Em uma região onde o agro pulsa forte, movimenta milhões e sustenta parte significativa da economia, a decisão de destinar recursos para salvar vidas provoca uma reflexão inevitável: qual é, afinal, a responsabilidade social de quem prospera sobre esta terra? O campo produz alimentos, gera riqueza, empregos e desenvolvimento. Mas também produz escolhas. E algumas delas revelam muito mais do que balanços positivos.
É verdade que doações dessa natureza podem contar com compensações fiscais. A legislação prevê incentivos, e isso não deve ser ignorado. Mas reduzir um gesto dessa magnitude a uma simples estratégia tributária é desonesto intelectualmente. Se incentivos fossem, por si só, suficientes para gerar solidariedade, haveria centros de hemodiálise sobrando e filas de empresários disputando quem doa mais. A realidade mostra o contrário. Nem todo milionário — seja pessoa física, grupo econômico ou grande produtor rural — se dispõe a colaborar como poderia.
A doação anunciada não resolve tudo. Não constrói o centro sozinha, não encerra o sofrimento de quem hoje precisa viajar centenas de quilômetros para sobreviver. Mas ela faz algo talvez ainda mais importante: rompe a inércia. Mostra que é possível sair do discurso e agir. Que é possível olhar para além da porteira, da lavoura, do lucro, e enxergar pessoas.
Como já dizia o escritor português José Saramago, “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”. A responsabilidade assumida por esse fazendeiro não apaga as ausências do poder público, nem substitui políticas de Estado. Mas escancara uma verdade desconfortável: quando a sociedade civil se move, ela expõe quem poderia fazer e não faz.
O Centro de Hemodiálise de Juína não é apenas uma obra de saúde. É um teste coletivo de empatia, compromisso e prioridade. O gesto vindo do agro — setor tantas vezes associado apenas a números e produção — humaniza o debate e convida outros a se posicionarem. Não como obrigação legal, mas como escolha moral.
No fim das contas, fica a pergunta que ecoa além das manchetes: quantas vidas ainda precisarão esperar para que mais gente entenda que riqueza também se mede pela capacidade de cuidar do outro? O fazendeiro fez sua parte. E os demais, vão seguir jogando a bola para o lado ou, finalmente, para frente?